domingo, 20 de junho de 2010


LITERATURA E PSICOLOGIA
Para Rodrigo de Souza Leão
O que me faz questão, me interessa, me causa é uma certa presença da loucura na literatura e alguns escritores tiveram com a loucura uma proximidade extrema, tais como Hölderlin, Nietzsche, Artaud, Beckett, Virginia Woolf, Joyce, Maura Lopes Cançado, Stela do Patrocínio, Rodrigo de Souza Leão.
“Mas o poeta habita o campo de estalagem da loucura.” Hilda Hilst
Deleuze, fala que os escritores tem uma saúde muito frágil, uma debilidade, uma exaustão, uma certa confusão nervosa que configuram uma permeabilidade, do que ele chamou de imaturidade necessária ao artista, ao escritor.
O escritor, diz Deleuze, é um amante da imaturidade, carrega a inocência dos embriões, a força do inacabamento.
Como diz Deleuze : [ o escritor ] goza de uma frágil saúde irresistível, que provém do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais, irrespiráveis, cuja passagem o esgota, dando-lhe contudo devires que uma gorda saúde dominante tornaria impossíveis.
Essa fragilidade do escritor não é neurose, nem psicose, mas POROSIDADE AO EXCESSO, ABERTURA E PERMEABILIDADE aquilo que uma gorda saúde, uma autosuficiência acabada, madura, fechada, concluída, funcionando bem demais, jamais poderia acolher e abrigar.
O escritor é aquele que viu demais, que ouviu demais, que foi atravessado demais pelo que viu e ouviu, que se desfigurou e desfaleceu por isso que é grande demais para ele, mas o escritor pode manter se permeável se permanecer numa condição de inacabamento, imaturidade, imperfeição, fragilidade.
Entretanto a gorda saúde dominante é incapaz de ver, ouvir e deixar-se atravessar por tanto excesso … MAS O QUE É A GORDA SAÚDE DOMINANTE? 
Será a vida essa gorda saúde de espetáculo, de frisson extasiado diante do sensacional, desse acaparamento do mundo por um estômago fenomenal, que deglute tudo porque expele tudo? Tudo lhes convém, a esses indivíduos com os bons estômagos. A gorda saúde dominante, que devora e expele tudo, e que preserva a própria forma num passeio majestoso no mundo - seja bela e consuma !
Ou, ao contrário, estará a vida mais próxima de uma fragilidade diante do excesso, e também por conseguinte, de uma certa seletividade ? Onde a frágil saúde irresistível, que por não engolir qualquer coisa e não empanturar-se pode permanecer mais aberta e permeável a muitas coisas e estar sujeito ÀS METAMORFOSES que advém dessa relação com o exterior.
O que ocorre a certos doentes é uma tal falta de euforia, uma tal inadaptação às pretensas felicidades da vida e que para não afundarem, são obrigados a ter recursos a idéias inteiramentes novas – inclusive se reconhecer e se  fazer reconhecer como Napoleão ou Deus o Pai. Eles controem seus personagens, seus delirios e com o qual se agarram a essa prancha de salvação.
Escrever é uma operação ao alcance de todo mundo e que parece ser tão proveitosa para os fracos, os doentes, os oprimidos e os inadaptados de toda sorte.
MAS AFINAL, O QUE SE INVENTA COM A PEQUENA SAÚDE FRÁGIL? QUE FUNÇÃO DESEMPENHA NISSO A LITERATURA ?
Deleuze coloca a questão nos seguintes termos: “Qual saúde bastaria para libertar a vida em toda a parte onde esteja aprisionada pelo homem e no homem.”
Nenhuma saúde bastaria para dar conta dessa tarefa de liberar a vida em toda parte onde esteja aprisionada … Viver não é sobreviver, viver não é apenas existir, mas arrancar da existência a vida, onde ela está aprisionada, submetida a uma forma majoritária, a uma gorda saúde dominante. Diante disso, Deleuze, propõe pensar a vida como palpitação, ardência a ser liberada… (“Tudo o que é vida é vulnerável, só o metal é invulnerável.”)
É aí que entra a escrita, pois a ESCRITA FAVORECE. A escrita libera a vida das individualidades estanques, em que ela se vê aprisionada. A literatura favorece outras tantas metamorfoses, saltos, saídas.
Ao escrever o escritor estaria experimentando saídas, abrindo os becos sem saídas, ABRINDO AS PALAVRAS PARA INTENSIDADES INTERIORES INAUDITAS …
“Há forças no interior do homem que o forçam a espantar-se consigo mesmo “ e a literatura consistiria em experimentar essas forças que forçam o homem a espantar-se consigo mesmo.
"Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte?"
Ferreira Gullar in Na vertigem do dia.
O eu, ou a consciência, apenas assistem, numa espécie de impotência assustada. POIS ESCREVER É DESERTAR PRECISAMENTE O EU, ESSA FORMA DOMINANTE, hegemônica.
Escrever é liberar a vida por toda parte onde ela esteja aprisionada e ela está aprisionada nas formas constituídas, sobretudo na forma dominante do eu.
Escrever é uma tentativa de libertar a vida daquilo que a aprisiona, é procurar uma saída, encontrar novas possibilidades.
A literatura e os devires que ela propicia recebem aí uma de suas funções políticas. É toda uma pregnância do modelo de “saúde” que a literatura deserta ao abandonar a Forma-homem, ao embarcar em devires minoritários, plurais.
É assim, que uma máquina literária entra em conexão com uma máquina política, e as palavras soltam visões e audições, e essas visões e audições ganham amplitude a um só tempo fabuladora e política. Não é a literatura representando o mundo, mas liberando nele, através da linguagem, da escrita, visões e audições que criam realidade.
Ao escrever, o escritor revela algo a respeito do mundo.
“Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram
.”
Em “Todos os cachorros são azúis “ de Rodrigo de Souza Leão , o personagem central na sua loucura, acaba denunciando toda uma civilização.
“Um dia ainda sobrevivo para mostrar todo esse jogo sujo”.
 Então este personagem, que parecia o doente, ou o arrebatado, ou o insano, ou o simplesmente o louco, acaba funcionando como médico, como aquele que pelo extremo, revela a doença da nossa civilização, suas fraquezas, suas covardias, sua palidez, sua mesquinhez …
Este personagem – o gordo, tinha a energia necessária para dizer o indizível, para denunciar o horror dos hospícios, o horror dos dos ditos tratamentos, o horror de uma dominação física e moral sobre a loucura.
Em seu livro denúncia tal como Lima Barreto, Rodrigo escreveu:
“No começo da internação às vezes ficamos amarrado. Cada um tem um tratamento que varia de acordo com sua periculosidade.”
“Mas o dia inteiro preso, vendo tudo de longe. Era triste.”
“Naquele cubículo era sempre inverno. Sempre fazia frio.”
“Qualquer coisa e você poderia ser amarrado à cama. Dentro do cubículo e amarrado era a morte.”
“Nenhum louco merece aquele tratamento.”
“Todo dia eu pedia a Deus que me tirasse dali o mais rápido possível e que o mais rápido fosse o dia seguinte.”
“Aqui todos estão sendo levados a algum lugar pior. E o inferno não é o pior dos lugares.”
“Havia estado no Carandiru.”
“Liberdade, só fora do hospício.”
“É como eu me sinto, um ser crucificado. Antigamente, todo mundo que era diferente ou representava algum perigo era crucificado. Hoje em dia fica em lugares como hospício, que é a melhor forma de não melhorar.”
“O hospício era um lugar cheio de flores lindas, mas podre por dentro. O modelo hospício tinha que ser mudado.”
Rodrigo era uma pessoa dotada de lucidez superior, o que lhe permitiu, ver e ouvir mais além, infinita e perigosamente mais além que o real imediato e aparente dos fatos. Quero dizer mais além da consciência que a consciência habitualmente guarda dos fatos. A consciência é seletiva, apaga o que não lhe interessa mas, Rodrigo ultrapassou esse crivo da percepção. Ele não selecionou, não recortou, pois é o murmúrio deste universo psiquiátrico que ele viu e ouviu.
Rodrigo,com sua poesia, com sua escrita - "levando os homens a se verem como são, faz cair a máscara, põe a descoberto a mentira, a a baixeza, o engodo; sacode a inércia asfixiante da matéria que atinge até os dados mais claros dos sentidos" Artaud
Essa é a sensibilidade do escritor, a sensibilidade capaz de registrar os desfalecimentos, os acontecimentos por vezes intoleráveis, todo esse rumor.
De agora em diante é impossível não voltar a Rodrigo !
Nietzsche dizia que o artista e o filósofo são médicos da civilização. É nesse sentido que o escritor, para Deleuze, através dessa sua saúde frágil, ao colocar –se à mercê de forças cuja visão e audição o esgotam, em contraposição a uma gorda saúde dominante, o escritor revela a doença da civilização.
Esse é um dos sentidos em que podemos afirmar que a Literatura é uma saúde. Ela inventa e acompanha processos e denuncia tudo aquilo que emperra, que aprisiona .
O escritor vê e ouve através das palavras, entre as palavras. De cada escritor é preciso dizer: é um vidente, um ouvidor, “mal visto mal dito” com um objetivo crítico e clínico : captar forças, tornar sensíveís forças invisíveis e inaudíveís, e libertar a vida de uma prisão.
A Literatura é uma atividade clínica !
“ … nos escombros de mim - fundei meu médico – na poesia da receita…” Rodrigo de Souza Leão in Sindrome de plumas
O escritor como tal não é doente, mas antes médico, médico de si mesmo e do mundo. O escritor, ao criar seu procedimento literário e tornar-se capaz de ver e ouvir, age como um diagnosticador.  Assim, todo grande escritor é um clínico, um clínico da civilização: alguém que analisa a doença ou os sintomas do homem e do mundo e avalia suas possibilidades de cura. A literatura é uma saúde.

“ … NOS ESCOMBROS DE MIM - FUNDEI MEU MÉDICO – NA POESIA DA RECEITA…” Rodrigo de Souza Leão in Sindrome de plumas

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

JORNADA DE PSICANÁLISE


ESPECIALIZAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA E PRÁTICA CLÍNICO-INSTITUCIONAL

LOCAL: AUDITÓRIO DA PÓS-GRADUAÇÃO
Rua Ibituruna, 75

DIA: 27 DE MARÇO DE 2010

HORÁRIO: 10:00 HORAS ÀS 16:00 HORAS

10:00 HORAS – ABERTURA

GLORIA SADALA - COORDENADORA DO MESTRADO EM PSICANÁLISE, SAÚDE E SOCIEDADE E DA PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA E PRÁTICA CLÍNICO-INSTITUCIONAL DA UVA

ALINE DRUMMOND - COORDENADORA PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA E PRÁTICA CLÍNICO-INSTITUCIONAL DA UVA E PROFESSORA DA GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DA UVA


10:15 ÀS 12:00 HS : NEUROSE E PSICOSE

MARIA CRISTINA ANTUNES - Psicanalista/ Núcleo Sephora
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA

GEORGINA CERQUISE - Psicanalista/FCCL
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA


12:00 HS ÀS 13:00 HS INTERVALO PARA ALMOÇO


13:00 HS ÀS 14: 30 HORAS : O INCONSCIENTE E O CORPO

LUANA RUFF - Psicanalista
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA


14:30 ÀS 16:00 HS : PERVERSÃO E CLÍNICA PSICANALÍTICA

MARIA HELENA MARTINHO - Psicanalista/FCCL
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA
Coordenadora do SPA da UVA e Professora da Graduação em Psicologia da UVA
ESPECIALIZAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA E PRÁTICA CLÍNICO-INSTITUCIONAL

LOCAL: AUDITÓRIO DO CAMPUS BARRA

DIA: 10 DE ABRIL 2010

HORÁRIO: 10 HORAS ÀS 16 HORAS

10:00 HORAS: ABERTURA

GLORIA SADALA  - COORDENADORA DO MESTRADO EM PSICANÁLISE, SAÚDE E SOCIEDADE E DA PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA E PRÁTICA CLÍNICO-INSTITUCIONAL DA UVA

ALINE DRUMMOND - COORDENADORA PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA E PRÁTICA CLÍNICO-INSTITUCIONAL DA UVA E PROFESSORA DA GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DA UVA


10:30 ÀS 12:00 HS : ESTRUTURAS CLÍNICAS

ELISABETH  DA ROCHA MIRANDA  - Psicanalista/FCCL
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA

ANA PAULA DA COSTA GOMES  - Psicanalista/ Escola Lacaniana
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA


12:00 HS ÀS 13:00 HS INTERVALO PARA ALMOÇO

13:00 HS ÀS 14: 30 HORAS : PSICANÁLISE E LITERATURA

NADIÁ PAULO FERREIRA - Psicanalista/ Corpo Freudiano
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA

ADELINA Lima Freitas - Psicanalista/ SPID
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA


14:30 ÀS 16:00 HS : PSICANÁLISE COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

TERESINHA COSTA - Psicanalista/ Corpo Freudiano
Professora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da UVA

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010


O BLOCO TÁ PIRANDO, PIRADO, PIROU! ENTRARÁ NA AVENIDA!!! 07 de fevereiro - DOMINGOAv. Pasteur (ao lado da UFRJ)Concentração: 15hDesfile: 16hO Bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou! desfila no Carnaval 2010 com o enredo existencialista “Ser maluco é fácil, difícil é ser eu!”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

PAPO PSI NA FNAC


19/11/2009
Data: 19 de novembro de 2009
Horário: 18h
Local: Fórum Fnac BarraShopping

Um espaço para trazer à tona questões relevantes sobre o universo da Psicologia e sua influência no ser humano. Encontros promovidos pela Universidade Veiga de Almeida em parceria com a Fnac.


Psicologia e Literatura

Escrever é uma tentativa de libertar a vida daquilo que a aprisiona, é procurar uma saída, encontrar novas possibilidades, novas potências da vida. Pois a criação artística é, o ato de tornar visível o invisível, tornar audível o inaudível, tornar dizível o indizível, tornar pensável o impensável.
Homenagem ao escritor Rodrigo de Souza Leão, autor de “Todos os Cachorros São Azuis”.

Com ALINE DRUMMOND – Professora do Curso de Graduação em Psicologia e Coordenadora da Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Prática-Clínico Institucional (UVA) e RAMON MELLO - Poeta, autor de 'Vinis Mofados' (Língua Geral)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

DIA DA LUTA ANTIMANICOMIAL

Rio de janeiro, 20 de maio de 2009.

Bom dia. Hoje é um dia muito importante para mim, porque hoje nós estamos reunidos para comemorarmos o dia nacional da luta antimanicomial.

Agradecimentos,

Á direção da Universidade Veiga de Almeida; à coordenação de Psicologia; aos alunos do curso de graduação em Psicologia do campus barra e do campus tijuca; à coordenação do Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade; à coordenação do SPA; aos companheiros, Ricardo Aquino, Sylvia Gonçalves, Edvaldo Nabuco, Lana Braga, Gloria Perez, Esther Wenna, Ricardo Azevedo Gualvedo, Michele Borges de Aquino, Clara Feldman, Maria Lenilva M. Costa, a banda Mil coisas, aos cancioneiros do IPUB e ao Sistema Nervoso Alterado.

Agradeço o apoio do Papel Pinel, All Energy, Walprint.

Agradeço, ainda, aos meus alunos e monitores pela colaboração com meu trabalho e com a organização desse evento: Ana Luísa Tavares, Anna Luiza Barboza, Arthur Júnior, Cristianne Otero, Cristina Miranda, Daniela Dias, Débora Longui, Etiene Marcon, Fernanda Guapyassú, Francisco Maia, Helga Goldenberg, Joyce Guilherme, Letícia Moura, Luciano Rosalba, Luís Manuel Braz, Mariana Marques, Nathália Peret, Quezia Oliveira, Renata Marapodi, Rosita Meirelles, Simone Ferreira e Themis Marques.

Meu muito obrigada !

 

Estamos comemorando 22 anos do movimento de luta antimanicomial e 30 anos (1979) da visita de Franco Basaglia ao Brasil. Sua presença instigou e provocou o debate sobre as diferentes perspectivas de compreensão da loucura e suas relações com os saberes, as instituições, a cultura e os processos sociais.

Os temas propostos por Basaglia convidavam a pensar de modo bastante inovador a instituição psiquiátrica e a possibilidade de inventar diferentes formas de lidar com a experiência das pessoas com sofrimento psíquico.

Basaglia afirmava a necessidade de superação do manicômio e com isso produzia uma profunda transformação de ótica. Ele afirmava que este processo de transformação/superação do manicômio não poderia ser compreendido como apenas um novo modelo técnico e também não se encerrava no interior da instituição, mas era necessário colocar principalmente em discussão a finalidade da existência do manicômio, assim como era também crucial reentrar na cidade, reinscrever os problemas das pessoas internadas em sua dimensão existencial e também era urgente produzir novas instituições. Em outras palavras, a superação das instituições da violência era/é uma exigência ética.

Assim, o debate sobre a loucura e as instituições psiquiátricas transcendem os limites dos muros dos manicômios, adentram o espaço público e é importante sublinhar que a questão psiquiátrica não é um problema puramente científico, mas também é uma questão social, política e cultural

Desse modo, é colocado em discussão que a crítica ao modelo asilar não se situa apenas no interior do discurso técnico-científico, mas sobretudo no conjunto de questões sociais, tendo como fios condutores a exclusão e a cidadania.

O conceito de cidadania dos doentes mentais, se relaciona à ampliação dos direitos sociais, jurídicos e politicos dos mesmos.

A capacidade de incluir a questão psiquiátrica como parte das questões sociais, trancendem os limites impostos pelo saber/poder medico, e significa um desafio na busca de novas interpretações e práticas que não anulem a loucura como experiência humana.

Assim, arriscamos a dizer com Paulo Amarante que “ os intinerários de Franco Basaglia – éticos, práticos, teóricos e politicos – convidam, sobretudo, a aprender a aprender, a negar as diferentes formas de objetivação do homem, a recusar a exclusão como resposta natural e imutável, a buscar a superação das instituições da violência, a arriscar o encontro com a complexidade da existência-sofrimento das pessoas e a inventar percursos de negação, superação e invenção de novas realidades. “

Foi com a intenção de negação, superação e invenção de novas realidades que, então, foi contruído o lema da luta antimanicomial: “Por uma sociedade sem manicômios”, lema este   polêmico/instigante.

Assim, quando optamos por defender uma sociedade sem manicômios, vivemos as conseqüências desta decisão e a primeira é a de que o movimento deixa de ser o movimento dos trabalhadores de saúde mental para tornar-se um movimento social, ou seja, aberto a todos os interessados em repensar as formas e modos de presença da loucura.

Dessa forma, quando definimos a luta antimanicomial como movimento social, implicamos o corpo social neste processo. E por assim pensar, temos conduzido, no Brasil, uma longa luta pela extinção não só dos hospitais psiquiátricos, mas estendemos/entendemos a nossa luta a/de todas as formas derivadas ou vinculadas à ordem manicomial.

Como sabemos, os manicômios são lugares não só no sentido geográfico destinados à loucura fora-da-cidade, mas a cima de tudo no sentido político, pois para lá vão todos aqueles declarados incapazes de decisão e escolha, incapazes de responder em seu próprio nome.

Rejeitamos com veemência todas as instituições sociais que discriminam e excluem e assim diante da ação covarde de tais instituições, concluo, então, afirmando que parece sempre tempo de dizer “por uma sociedade sem manicômios” não como ponto de chegada, mas como ponto de partida.

 

 

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

SERVIÇOS RESIDENCIAIS TERAPÊUTICOS EM SAÚDE MENTAL: OBSTÁCULOS E DESAFIOS

Aline Drummond de Mendonça

“Não permitir que as residências terapêuticas se transformem em lugares sem recuperação social (mini-manicômios).”[1]

A implantação efetiva da Reforma Psiquiátrica requer o desenvolvimento de programas de desinstitucionalização das pessoas há longo tempo internadas, que visem os processos de autonomia, de construção dos direitos de cidadania e de novas possibilidades de vida para todos e que garantam o acesso, o acolhimento, a responsabilização e a produção de novas formas de cuidado do sofrimento. Neste processo é fundamental a criação de Serviços Residenciais Terapêuticos com capacidades e recursos para desenvolver o acompanhamento de usuários objetivando a inserção familiar e social.
Desta forma, a desinstitucionalização e efetiva reintegração de doentes mentais graves na comunidade é uma tarefa a que o SUS vem se dedicando com especial empenho nos últimos anos.
“Nós devemos entender aqui que a desinstitucionalização não seja idêntica à simples abertura das portas do manicômio. A luta que se desenvolve é contra uma instituição manicomial ou um manicomialismo. Mais propriamente falando, é contra uma lógica interna à instituição que tende à sua própria auto-reprodução, anulando os atores enquanto sujeitos de transformação. Sem essa clareza, corre-se o risco de que, mesmo um serviço extra hospitalar, reproduza-se a mesma lógica manicomial, que se criem serviços modernos, mas que continuam a ser instituições da violência, locais de exclusão e segregação social. Basaglia, ao se referir às instituições, dizia que abrir uma instituição, o manicômio, não é apenas abrir as portas, mas abrir a nossa cabeça em confronto com aquele que nos procura. Isso faz com que se modifique a própria relação técnico-usuário, isto é, um técnico não tem mais respostas institucionais prontas a priori, mas deve criar alternativas concretas dentro da própria relação tensa, de sujeito a sujeito, de cidadão a cidadão, entre aquele que procura um serviço e aquele técnico que recebe uma demanda."[2]
Sabemos que as residências terapêuticas constituem alternativas às internações, porém, para que essas moradias não sejam apenas a simples substituições geográficas dos leitos hospitalares com a manutenção de práticas e comportamentos manicomiais, para que este risco possa ser evitado, mesmo sabendo que não há receitas prontas e definitivas, penso que talvez a especificidade do nosso exercício profissional seja produzir certa disposição para construir problemas nos espaços por onde circulamos, nos coletivos de trabalho, entre usuários e para nós mesmos. Que nosso foco seja interrogar sobre como ocupamos as cenas, como as produzimos: enquanto interditores ou produtores de vida? Que nosso agir seja lutar contra o ímpeto da prescrição de modos de existir no mundo, o que nos faz técnicos da correção e da modelagem.
“As residências terapêuticas, digamos, são uma espécie de calcanhar-de-aquiles do processo da reforma. É muito difícil implantá-las. Há uma resistência muito grande. Há uma dificuldade real e concreta de se criar esse dispositivo. Temos apenas dois mil pacientes, dos quais setecentos e cinqüenta estão no estado de São Paulo. No resto do Brasil há mil e trezentos pacientes em residências terapêuticas. É um número bastante baixo, se considerarmos que temos cinqüenta e cinco mil pacientes internados. Muitos desses pacientes que precisam da residência terapêutica vão sair da sua vida no hospital psiquiátrico. É interessante, pois, cada vez que se cria uma vaga de residência terapêutica, é fechado, no sistema, um leito. Fazendo assim, vamos reduzindo os leitos criteriosamente. Criou-se o serviço, a residência, bloqueia-se aquela vaga e não existe mais aquela vaga no hospital psiquiátrico.”[3]
“Tenho observado que os órgãos de representação da categoria médica e dos psiquiatras começam a resistir à idéia da reforma psiquiátrica. Isso me parece totalmente equivocado. Os profissionais comprometidos com a boa prática médica não podem esquecer que, certa vez, se aliaram aos proprietários de hospitais e se tornaram subempregados, funcionários desqualificados, mal pagos e desrespeitados. Não podem esquecer também que se aliaram, outra vez, aos empresários de seguro-saúde, e deles se tornaram escravos, sem autonomia profissional e sem controle sobre as possibilidades terapêuticas. Em que pesem todos os problemas e limitações, é no SUS que ainda podemos, não apenas médicos, mas todos os profissionais do setor, realizar as possibilidades reais da saúde em nosso país. Seja porque o SUS é o maior e mais promissor mercado de trabalho nessa área (e não se iludam quanto a isso), seja porque é o mais democrático e inclusivo sistema de saúde público do mundo.”[4]
Assim, torna-se fundamental refletirmos os motivos subjacentes às dificuldades de implementação das residências terapêuticas. Não é apenas nos níveis administrativos, financeiro e organizacional que encontramos resistência à reforma psiquiátrica.
“Mas, além desses, e de um modo muito mais sutil e refinado, se escancaram as nossas precariedades pessoais, teóricas, práticas, para lidar com uma demanda oceânica e desconcertante, que habitualmente impõe a escolha dilemática entre tolher, aplacar, ocultar, como fazem as instituições totais para administrar o incômodo, ou, de um modo, partir para um desafio incomensurável de facilitar produção de subjetividade com o peso do desconcerto, da provisoriedade das teorias, do desenclausuramento de si próprio para acompanhar os caminhos do outro.”[5]

[1] Relatório do VII Encontro Nacional de Usuários e Familiares do Movimento da Luta Antimanicomial de 18 à 21/09/2003, Xerém – Duque de Caxias, RJ.
[2] Tykanori, Roberto – “Uma experiência pioneira: a reforma psiquiátrica italiana” in Saúde Mental e Cidadania; Edições Mandacaru, Plenário de Trabalhadores em Saúde Mental do Estado de São Paulo.
[3] Delgado, Pedro Gabriel Godinho – “Protagonismo Social da Psicologia na Reforma Psiquiátrica” in Relatório do II Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas, de 28 à 31/05/2003 Espaço Cultural João Pessoa, PB.
[4] Amarante, Paulo – “Rumo ao fim dos manicômios” in Revista Mente e Cérebro, setembro de 2006, pág. 35.
[5] Pitta, Ana Maria Fernandes – “Cuidando de Psicóticos” in clínica da psicose: um projeto na rede pública Te Cora Editora: Instituto Franco Basaglia, 1994; pág. 165-66.